quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A mecânica do coração

Voz baixa. Escuto os sons dos tachos e dos talheres. A atmosfera calorosa lembra-me a velha casa da doutora Madeleine e pergunto a mim próprio o que fará ela no alto da colina. Decido escrever-lhe.
Querida Madeleine

Comigo esta tudo bem. Neste momento estou em paris.
Espero que Joe e a polícia te deixem em paz. Não te esqueças de pôr flores na minha campa enquanto aguardas o meu regresso!
Tenho saudades tuas. E da casa também.
Tenho tido cuidado com o meu relógio. Como me pediste, vou tentar encontrar um relojoeiro para me recompor de tantas emoções. Um abraço a Artur, Luna e Anna da minha parte.
Escrevo deliberadamente frases curtas para que o pombo tenha um voo ligeiro. Gostaria de ter notícias rapidamente.
Enrolo as minhas palavras na pata da ave, lanço-a nos céus de paris e ela começa a voar às três pancadas. È evidente que Luna decidiu fazer-lhe um corte original nas pernas por causa do período do acasalamento, rapando-lhe também os lados da cabeça.
O pombo parece um piçaba com asas. Pergunto a mim próprio se não teria sido melhor utilizar o correio tradicional.
Antes de ir mais longe, preciso de encontrar um bom relojoeiro. Desde que parti, o meu coração range mais do que nunca. Gostaria mesmo que mo regulassem correctamente para poder encontrar a minha pequena cantora. Devo-o a Madeleine. Bato à porta de um joalheiro no boulevard Saint-German. Um velhote todo janota aproxima-se e pergunta qual a razão da minha visita.
- Consertar o meu relógio…
- Trá-lo consigo?
- Trago!
Desabotoo a sobrecasaca e depois a camisa.
- Eu não sou médico – responde-me ele secamente.
- Não pode dar so uma olhadela para ver se as engrenagens estão todas no seu devido lugar?
- Já te disse que não sou médico!
O tom usado é desdenhoso. Tento manter a calma. O homem olha para o relógio como se eu lhe estivesse a mostrar uma coisa suja.
- Eu sei que não é medico!
Isto é um relógio clássico que precisa de ser regulado de vez em quando para funcionar bem…
- Os relógios são utensílios destinados a medir o tempo, mais nada. Desaparece daqui com esse aparelhómetro diabólico. Desaparece ou chamo a polícia!
É como se estivesse outra vez na escola e em casa de Madeleine, com os casais jovem que lá aparecem. Apesar de conhecer a sensação de injustiça, não consigo habituar-me. Pelo contrário, quanto mais cresço, mais dolorosa é. Isto não passa de uma merda de um relógio de madeira, de uma data de engrenagens que me fazem bater o coração!
À entrada da loja de encontra-se um velho relógio de sala, metálico e pretensiosamente trabalhado, parecido com o proprietário, do mesmo modo que os certos cães se parecem com os donos. Antes de sair dou-lhe um pontapé, como um futebolista profissional. O relógio vacila, o pêndulo bate violentamente nas quatro paredes da caixa e enquanto corro pelo boulevard Saint-German fora, ouço nas minhas costas um som de vidros partidos. È fantástico como o barulho me descontrai.
O segundo relojoeiro, um homem gordo e calvo de uns cinquenta anos, mostra-se mais compreensivo.
- O melhor é ires ter com o Sr. Méliés, um ilusionista muito inventivo. Tenho a certeza de que é capaz de te resolver o problema, meu pequeno.
- Eu não preciso de um mágico, preciso de um relojoeiro!
- Alguns relojoeiros também são mágicos, e este magico também é relojoeiro. Tal como Robert Houdin, alias, a quem acaba de compara um teatro! -diz ele maliciosamente. – Faz-lhe uma visita, diz que vais da minha parte. Estou convencido de que é capaz de te consertar!
Não compreendo por que razão este homem simpático não trata de mim pessoalmente, mas a sua maneira de ver o meu problema é reconfortante. E eu sinto-me muito entusiasmado com a ideia de conhecer uma magico que ainda por cima é mágico - relojoeiro, tal como Madeleine. Talvez seja da mesma família.
Atravesso o Sena. A elegância da catedral gigante provoca-me torcicolos, assim como o sortido de traseiros e carrapitos que vejo na multidão. Esta cidade é um aglomerado de calçadas encimado por um sagrado coração. Finalmente chego ao boulevard dês italiens, onde se situa o famoso teatro. Um jovem de bigode e olhar vivo abre-me a porta.
- È aqui que mora o mágico?
- Qual magico? – Responde-me ele, como se estivéssemos a brincar às adivinhas.
- um magico chamado Georges Melies.
- Às tuas ordens!
O homem desloca-se autómato, brusca e graciosamente ao mesmo tempo e fala muito depressa com as mãos, como pontos de exclamação animados a pontuarem-lhes as palavras. No entanto, quando lhe conto a minhas historia, escuta atentamente. A conclusão, sobretudo, espanta-o:
- Apesar de este relógio me servir de coração, o trabalho que lhe peço que me faça não ultrapassará as funções de um relojoeiro.
O relojoeiro - prestigiador abre o mostrador, ausculta-me com um aparelho que lhe permite ver mais facilmente os componentes minúsculos e comove-se, como se a infância lhe desfilasse diante dos olhos. O homem acciona o sistema, destrava o cuco mecânico e declara a sua admiração pelo trabalho de Madeleine.
- Como é que arranjaste maneira de torcer o ponteiro das horas?
- estou apaixonado e não sei nada do amor. Então fico furioso, luto comigo próprio e por vezes ate tento acelerar ou abrandar o tempo. Esta muito estragado?
Méliés ri-se como uma criança.
- Não funciona tudo na perfeição. Que queres saber exactamente?
- A doutora Madeleine, que me insatalou este relógio, diz que este coração improvisado não é compatível com o amor, está convencida de que não resistira ao choque emocional de paixão.
- Ah sim! Bem…
Méliés semicerra os olhos e acaricia o queixo.
- Ela não pode pensar assim… mas tu não és obrigado a ter a mesma opinião pois não?
- Não, é verdade, mas quando vi a pequena cantora pela primeira vez, senti uma espécie de tremor de terra no meu relógio. As engrenagens rangeram e o tiquetaque acelerou. Quase sufoquei, fiquei todo emaranhado, todo desregulados.
- E gostaste?
- Adorei…
- Ah! Então?
- Então tive medo de que Madeleine tivesse razão.
Georeges Méliés abana a cabeça, afaga ao mesmo tempo o bigode e pronuncia as palavras cuidadosamente, como um cirurgião a escolher os seus instrumentos:
-Se tiveres medo de uma avaria, aumentas as hipóteses, justamente, de uma avaria. Vê os acrobatas, por exemplo: achas que eles pensam que vão cair quando na corda bamba?
Não, aceitam o risco e gozam o prazer que o perigo lhes proporciona. Se passares a vida a ter cuidado para ao partires nada, vais-te aborrecer muito, sabes? Eu não conheço nada mais divertido do que a imprudência! Olha para ti! Eu digo «imprudência» e os teus olhos iluminam-se! Ah ah! Quando aos catorze anos se decide atravessar a Europa atrás de uma rapariga, é porque se tem uma grande fraco pela imprudência, não?
- Sim, sim… mas não tem uma maneira qualquer de me dar um pouco de solidez ao coração?
- Claro, claro… mas ouve o que te digo! Ouve-me atentamente: a única maneira, como acabas de dizer, que te permite seduzir a mulher dos teus sonhos é justamente usares o teu coração. Não esse em forma de relógio que te puseram á nascença. Estou a falar verdadeiro, o que esta por baixo, de carne e sangue, que vibra. É com ele que deves trabalhar.
Esquece os teus problemas de mecânica, da-lhes menos importância. Sê imprudência e, sobretudo, entrega-te de corpo e alma .
Méliès é muito expressivo, todos os traços do seu rosto entram em acção quando se exprime. O seu bigode parece articulado com o sorriso, um pouco como os dos gatos.
- A coisa não funciona sempre, claro. Não te garanto nada.
Eu próprio acabo de fracassar com aquela que pensava ser a mulher da minha vida. Não há nada que funcione sempre.
Este prestidigitador, que segundo algumas pessoas é um génio, acaba de me dar uma curso de feitiçaria amorosa, confessando-me, no fim, que a sua ultima poção lhe explodiu na cara. Mas confesso que me fez bem, não so quando me mexeu nas engrenagens, mas também quando conversou comigo.
Trata-se de um homem afável, que sabe ouvir. Sente-se que conhece os seres humanos. Talvez tenha conseguido descobrir o segredo dos mecanismo psicológicos do homem. No espaço de algumas horas apenas, tornamo-nos muito cúmplices.
- Era capaz de escrever um livro sobre a tua historia. Neste momento já a conheço tão bem como a minha – diz ele.
- Escreva-o. Se um dia tiver filho, talvez eles possam ler.
Mas se quer saber o que se segue. Tem de vir comigo á Andaluzia!
- Com certeza não queres ter um prestidigitador deprimido por companheiro na tua peregrinação amorosa!
- Porque não? Gostava muito.
-Olha que eu ate sou capaz de fazer fracassar os milagres!
- Tenho a certeza de que não.
- Deixa-me pensar durante a noite, esta bem?
- Esta bem.

Quando os primeiros aios de sol entram pelas persianas do ateliê, ouço Georges Melies gritar:
- Andalucia! Anda! Andalucia! Anda! AndaaaAAAH!
Na minha frente, como que saído de uma oper, surge um louco em pijama.
- Está combinado, pequeno. Preciso de viajar no sentido real e figurado. Não me vou deixar esmagar eternamente pela melancolia. Precisamos os dois de uma enorme lufada de ar fresco. Isto se ainda me quiser como companheiro.
- Claro! Partimos quando?
- Imediatamente, a seguir ao pequeno-almoço! – Responde ele, mostrando-me a sua pequena trouxa.
Instalamo-nos a uma mesa cambada para beber um chocolate demasiado quente e devorar umas fatias de pão com compota demasiado moles. Não é um pequeno-almoço tão bom como em casa de medeleine, mas é divertido comer no meio de uma serie de extraterrestres de papel.
- Sabes, quando estava apaixonado, estava sempre a inventar coisas. Engenhocas, ilusões, efeitos especiais, tudo para divertir a minha noiva. Acho que ela se fartou - diz ele com bigode a meia haste. – Eu queria arranjar-lhe uma viagem á Lua, mas devia ter-lhe arranjado uma na Terra. Pedi-la em casamento, arranjar uma casa mais habitável do que o meu velho atelia, não sei… - acrescenta ele, suspirando. – um dia tirei duas pranchas a uma estante e fixei-lhes duas rodas tiradas de uma maca de hospital para podermos passear os dois ao luar. Ela nunca quis subir para cima desse carro improvisado. E eu tive de reparar a estante. O amor nem sempre é fácil, meu rapaz – repete ele, sonhador. – Mas tu e eu vamos montar nas nossas pranchas! Vamos percorrer metade da Europa nas nossas pranchas de rodas!
- E também apanhamos o comboio, não? Porque eu tenho alguma pressa.
- Pressionado pelo tempo?
- Também.

Dir-se-ia que o meu relógio é um amante de corações destroçados. Madeliene, Artur, Anna, Luna e ate Joe. E agora Mèliès.
Tenho a impressão de que os corações deles precisam mais dos cuidados de um bom relojoeiro do que o meu.


6.

Rumo a sul! Eis-nos nas estradas de França, peregrinos de rodas em demanda do sonho impossivel. Formamos um par engraçado: um homem desengonçado com bigodes de gato e um rapaz ruivo com coração de madeira. Dois Dom Quixotes improvisados ao assalto das paisagens do oeste andaluz. Luna descreveu-me sul de Espanha com um local imprevisível onde os sonhos e os pesadelos vivem lado a lado, é maneira dos cowboy e índios do Oeste americano. Quem viver, verá!

Fartamo-nos de conversar. De certa maneira. Méliés tornou-se o meu Doctor Love, a antítese de Medeleine. No entanto , ao pensar num, penso tambem no outro. Pelo meu lado, tento encoraja-lo a (re) conquistar a sua amada.
- Talvez ela ainda esteja apaixonada por ti lá no canto dela…
Talvez ainda queria uma viagem á Lua, mesmo que seja num foguetão de cartão.
– Não me parece. Ela acha-me patético, com os meus biscates. Tenho a certeza de que vai acabar por se apaixonar por um cientista ou por um militar, dada a maneira como tudo acabou entra nós.
Mesmo quando esta afogado em melancolia, o meu relojoeiro- prestidigitador continua ater uma força cómica muito poderosa, á qual o seu bigode de traves, constantemente importunado pelo vento, não é alheio.

Nunca me ri tanto como nesta cavalgada fabulosa. Viajamos clandestinamente em comboios de mercadorias, dormimos pouco e comemos o que encontramos. Eu, que vivo com um relógio no coração, não quero saber das horas. A chuva surpreendeu-nos tantas vezes que perguntou a mim próprio se não teremos encolhido. Mas nada nos detém e sentimo-nos mais vivos do que nunca.
Em Auxerre somos forçados a dormir no cemitério e no dia seguinte tomamos e pequeno-almoço numa pedre tumular a fazer de mesa de cozinha. É a vida em grande.
Em Lyon atravessamos a ponte de la Guillotiére nas nossas pranchas de rodas, agarrados é traseira de um fiacre. Os transeuntes aplaudem-nos como se fossemos o camisola amarela da Volta á França.
Em Valence , após uma noite de vagabundagem, uma velhota que nos toma por seus netos prepara-nos o melhor frango frito do mundo. Temos tambem direito a um banho com sabão e tudo e a um capo de limonada sem borbulhas. É mesmo a vida em grande.
Limpos e revigorados, partimos ao assalto das portas do Grande Sul. Orange e a sua policia ferroviária pouco inclinada a deixar-nos dormir no vagão do gado, Perpignam e os primeiros adores de Espanha… Quilometro apos quilometro, o meu sonho cresce, alimentado por todas as possibilidades. Miss Acácia, estou a chegar!
Ao lado do meu capitão Melies, sinto-me invencível. Atravessamos a fronteira espanhola em cima das nossas pranchas de rodas. O vento quente devora-me, transformando os ponteiros do meu coração em velas de moinho, um moinho que mói os grãos do sonho, transformando-o em realidade. Miss Acácia, estou a chegar!

Um exercito de oliveiras abre-nos o caminho, substituídas depois pelas laranjeiras em flor. Infatigáveis, avançamos. As montanhas vermelhas da Andaluzia recortam-se no horizonte.

Nuvens de tempestade acumulam-se sobre as montanhas, descarregando a sua fúria a alguns hectómetros de nós. Melies faz-me sinal para esconder a ferragem. Ainda não chegou a hora de apanhar relâmpagos com o coração.
Um pássaro aproxima-se de nós, planando como um abutre. O circo de rochas que nos rodeia torna-o inquieto. Afinal não passa do velho pombo-correio de Luna, que me traz noticias de Madeleine. É um alivio vê-lo regressar, finalmente, por que apesar dos meus sonhos tumultuosos, nunca a esqueço.
O pombo pousa no meio de uma minúscula nuvem de poeira. O meu coração acelera. Mal posso esperar para ler a carta. Não consigo apanhar o maldito do pássaro! O índio de bigode que me acompanha põe-se a ulular para o amansar, e eu acabo por agarra-lo, mas afinal o animal não traz mensagem nenhuma, apenas sobra uma guita atada á pata esquerda.
O vento deve ter ficado com ela. Talvez nos arredores de Valence, no vale do Ródano, quando ganha forças antes de ir morrer para os lados do sol.
Fico tão desiludido como se acabasse de abrir um presente vazio. Sento-me na minha prancha e rabisco rapidamente algumas palavras:

Querida Madeleine,


Podes mandar-me um resumo da tua primeira carta no próximo voo? É que o malandro do pombo perdeu-a.
Encontrei um relojoeiro que me esta a tratar do relógio.
Esta tudo a correr bem.
Tenho muitas saudades tuas e tambem de Anna, Luna e Artur.
Um beijo,
Jack



Melies ajuda-me a enrolar como deve ser o papel á volta da para do pássaro.
- se ela sabe que estou as portas da Andaluzia, a correr atrás do meu amor, apanha uma fúria.
- As mães têm medo pelos filhos e protegem-nos o mais possível, mas esta na hora de abandonares o ninho! Olha para o teu coração! E meio-dia! Esta na hora de seguir em frente!
Vês o que esta escrito naquele cartaz ali á frente? «Granada»!
Anda ! Anda! – ulula Melies com um frémito de cometa no olhar .
Numa caça ao tesouro, quando a luz dos moedas de ouro começa a sair pela fechadura da arca, a emoção submerge-nos, mal ousamos abrir a tampa com medo de ganhar.
Acalento este sonho há tanto tempo! Joe esmagou-me na cabeçae eu apanhei os bocados. Pacientemente, mentalmente, reconstitui o ovo cheio de imagens da pequena cantora, e agoraque ele esta pronto a esclodir, o medo paralisa-me. O Alhambra estende-nos os seus arabescos cravados no céu opala. Os fiacres andam aos solavancos, o meu relógio agita-se. O vento surge, levanta a poeira do chão e os vestidos das mulheres. Atrever-me-ei a desfolhar-te, Miss Acácia?

Chegados é velha cidade, pomo-nos á procura de uma sala de espectáculos. A luminosidade é quase insuportavel. Melies faz a mesma pergunta em todos os teatros que encontramos:
- Uma pequena cantora de flamenco que não vê muito bem, isso diz-vos qualquer coisa?
Seria mais fácil distinguir um floco no meio de uma tempestade de neve. O crepúsculo acaba por acalmar os ardores vermelho-alaranjados da cidade, mas nem sinal da Miss Acácia.
- Aqui há muitas cantoras desse género… - responde um homenzinho seco enquanto varre a esplanada do enésimo teatro.
- Não, não, não, esta é extraordinária; é muito nova , tem uns catorze, quinze anos, mas canta como uma adulta e vai muitas vezes de encontro ás coisas.
- Se é assim tão extraordinária, tentem o Extraordinarium.
- O que é isso?
-Um antigo circo transformado em feira popular. Há lá espetaculos de todos os géneros: trovadores, bailarinas, comboios-fantasma, elefantes selvagen, aves canoras, monstros vivos… parece-me que eles têm lá uma pequena cantora.
Numero 7 da Calle Paplo Jardim, no bairro da cartuja, a um quarto de hora daqui.
- Obrigado.
- È um sitio esquisito. É preciso gostar… Boa sorte, em todo o caso!

A caminho do extraordinarium, Melies não se poupa a recomendações de ultima hora.
- Tens de ser como um jogador de póquer. Não mostres, nunca, que tens medo ou duvidas. O teu coração é um trunfo.
Pensas que é uma fraqueza, mas se assumires essa fragilidade, esse relógio-caraçoa tornar-te-á especial. A diferença torna-se-á sedutor!
- Usar a minha deficiência como arma de sedução? Achas?
- Claro! A tua pequena cantora não te encantou por usar óculos e ir contra tudo?
- não é a mesma coisa…
- Não, evidentemente, mas e diferença faz parte do encanto dela. Chegou o momento de usares a tua.
Sai dez horas da noite quando entramos no recinto do Extraordinarium. Percorremos as ruelas. A musica ressoa de todos os lados, os melodias sobrepõem-se umas as outras num alegre zunzum. Das tendas desprende-se um cheiro a fritos e a pó – as pessoas devem estar sempre cheias de sede aqui!
As barracas brancas dão a impressão de estar prestes a desabar ao primeiro sopro. A casa das aves canoras parece-se com o meu coração, mas em ponto grande. É preciso esperas que chegue a hora para as ver sair do mostrador; é mais fácil acertas um relógio quando não existe nada vivo no interior.

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