
Voz baixa. Escuto os sons dos tachos e dos talheres. A atmosfera calorosa lembra-me a velha casa da doutora Madeleine e pergunto a mim próprio o que fará ela no alto da colina. Decido escrever-lhe.
Querida Madeleine
Comigo esta tudo bem. Neste momento estou em paris.
Espero que Joe e a polícia te deixem em paz. Não te esqueças de pôr flores na minha campa enquanto aguardas o meu regresso!
Tenho saudades tuas. E da casa também.
Tenho tido cuidado com o meu relógio. Como me pediste, vou tentar encontrar um relojoeiro para me recompor de tantas emoções. Um abraço a Artur, Luna e Anna da minha parte.
Escrevo deliberadamente frases curtas para que o pombo tenha um voo ligeiro. Gostaria de ter notícias rapidamente.
Enrolo as minhas palavras na pata da ave, lanço-a nos céus de paris e ela começa a voar às três pancadas. È evidente que Luna decidiu fazer-lhe um corte original nas pernas por causa do período do acasalamento, rapando-lhe também os lados da cabeça.
O pombo parece um piçaba com asas. Pergunto a mim próprio se não teria sido melhor utilizar o correio tradicional.
Antes de ir mais longe, preciso de encontrar um bom relojoeiro. Desde que parti, o meu coração range mais do que nunca. Gostaria mesmo que mo regulassem correctamente para poder encontrar a minha pequena cantora. Devo-o a Madeleine. Bato à porta de um joalheiro no boulevard Saint-German. Um velhote todo janota aproxima-se e pergunta qual a razão da minha visita.
- Consertar o meu relógio…
- Trá-lo consigo?
- Trago!
Desabotoo a sobrecasaca e depois a camisa.
- Eu não sou médico – responde-me ele secamente.
- Não pode dar so uma olhadela para ver se as engrenagens estão todas no seu devido lugar?
- Já te disse que não sou médico!
O tom usado é desdenhoso. Tento manter a calma. O homem olha para o relógio como se eu lhe estivesse a mostrar uma coisa suja.
- Eu sei que não é medico!
Isto é um relógio clássico que precisa de ser regulado de vez em quando para funcionar bem…
- Os relógios são utensílios destinados a medir o tempo, mais nada. Desaparece daqui com esse aparelhómetro diabólico. Desaparece ou chamo a polícia!
É como se estivesse outra vez na escola e em casa de Madeleine, com os casais jovem que lá aparecem. Apesar de conhecer a sensação de injustiça, não consigo habituar-me. Pelo contrário, quanto mais cresço, mais dolorosa é. Isto não passa de uma merda de um relógio de madeira, de uma data de engrenagens que me fazem bater o coração!
À entrada da loja de encontra-se um velho relógio de sala, metálico e pretensiosamente trabalhado, parecido com o proprietário, do mesmo modo que os certos cães se parecem com os donos. Antes de sair dou-lhe um pontapé, como um futebolista profissional. O relógio vacila, o pêndulo bate violentamente nas quatro paredes da caixa e enquanto corro pelo boulevard Saint-German fora, ouço nas minhas costas um som de vidros partidos. È fantástico como o barulho me descontrai.
O segundo relojoeiro, um homem gordo e calvo de uns cinquenta anos, mostra-se mais compreensivo.
- O melhor é ires ter com o Sr. Méliés, um ilusionista muito inventivo. Tenho a certeza de que é capaz de te resolver o problema, meu pequeno.
- Eu não preciso de um mágico, preciso de um relojoeiro!
- Alguns relojoeiros também são mágicos, e este magico também é relojoeiro. Tal como Robert Houdin, alias, a quem acaba de compara um teatro! -diz ele maliciosamente. – Faz-lhe uma visita, diz que vais da minha parte. Estou convencido de que é capaz de te consertar!
Não compreendo por que razão este homem simpático não trata de mim pessoalmente, mas a sua maneira de ver o meu problema é reconfortante. E eu sinto-me muito entusiasmado com a ideia de conhecer uma magico que ainda por cima é mágico - relojoeiro, tal como Madeleine. Talvez seja da mesma família.
Atravesso o Sena. A elegância da catedral gigante provoca-me torcicolos, assim como o sortido de traseiros e carrapitos que vejo na multidão. Esta cidade é um aglomerado de calçadas encimado por um sagrado coração. Finalmente chego ao boulevard dês italiens, onde se situa o famoso teatro. Um jovem de bigode e olhar vivo abre-me a porta.
- È aqui que mora o mágico?
- Qual magico? – Responde-me ele, como se estivéssemos a brincar às adivinhas.
- um magico chamado Georges Melies.
- Às tuas ordens!
O homem desloca-se autómato, brusca e graciosamente ao mesmo tempo e fala muito depressa com as mãos, como pontos de exclamação animados a pontuarem-lhes as palavras. No entanto, quando lhe conto a minhas historia, escuta atentamente. A conclusão, sobretudo, espanta-o:
- Apesar de este relógio me servir de coração, o trabalho que lhe peço que me faça não ultrapassará as funções de um relojoeiro.
O relojoeiro - prestigiador abre o mostrador, ausculta-me com um aparelho que lhe permite ver mais facilmente os componentes minúsculos e comove-se, como se a infância lhe desfilasse diante dos olhos. O homem acciona o sistema, destrava o cuco mecânico e declara a sua admiração pelo trabalho de Madeleine.
- Como é que arranjaste maneira de torcer o ponteiro das horas?
- estou apaixonado e não sei nada do amor. Então fico furioso, luto comigo próprio e por vezes ate tento acelerar ou abrandar o tempo. Esta muito estragado?
Méliés ri-se como uma criança.
- Não funciona tudo na perfeição. Que queres saber exactamente?
- A doutora Madeleine, que me insatalou este relógio, diz que este coração improvisado não é compatível com o amor, está convencida de que não resistira ao choque emocional de paixão.
- Ah sim! Bem…
Méliés semicerra os olhos e acaricia o queixo.
- Ela não pode pensar assim… mas tu não és obrigado a ter a mesma opinião pois não?
- Não, é verdade, mas quando vi a pequena cantora pela primeira vez, senti uma espécie de tremor de terra no meu relógio. As engrenagens rangeram e o tiquetaque acelerou. Quase sufoquei, fiquei todo emaranhado, todo desregulados.
- E gostaste?
- Adorei…
- Ah! Então?
- Então tive medo de que Madeleine tivesse razão.
Georeges Méliés abana a cabeça, afaga ao mesmo tempo o bigode e pronuncia as palavras cuidadosamente, como um cirurgião a escolher os seus instrumentos:
-Se tiveres medo de uma avaria, aumentas as hipóteses, justamente, de uma avaria. Vê os acrobatas, por exemplo: achas que eles pensam que vão cair quando na corda bamba?
Não, aceitam o risco e gozam o prazer que o perigo lhes proporciona. Se passares a vida a ter cuidado para ao partires nada, vais-te aborrecer muito, sabes? Eu não conheço nada mais divertido do que a imprudência! Olha para ti! Eu digo «imprudência» e os teus olhos iluminam-se! Ah ah! Quando aos catorze anos se decide atravessar a Europa atrás de uma rapariga, é porque se tem uma grande fraco pela imprudência, não?
- Sim, sim… mas não tem uma maneira qualquer de me dar um pouco de solidez ao coração?
- Claro, claro… mas ouve o que te digo! Ouve-me atentamente: a única maneira, como acabas de dizer, que te permite seduzir a mulher dos teus sonhos é justamente usares o teu coração. Não esse em forma de relógio que te puseram á nascença. Estou a falar verdadeiro, o que esta por baixo, de carne e sangue, que vibra. É com ele que deves trabalhar.
Esquece os teus problemas de mecânica, da-lhes menos importância. Sê imprudência e, sobretudo, entrega-te de corpo e alma .
Méliès é muito expressivo, todos os traços do seu rosto entram em acção quando se exprime. O seu bigode parece articulado com o sorriso, um pouco como os dos gatos.
- A coisa não funciona sempre, claro. Não te garanto nada.
Eu próprio acabo de fracassar com aquela que pensava ser a mulher da minha vida. Não há nada que funcione sempre.
Este prestidigitador, que segundo algumas pessoas é um génio, acaba de me dar uma curso de feitiçaria amorosa, confessando-me, no fim, que a sua ultima poção lhe explodiu na cara. Mas confesso que me fez bem, não so quando me mexeu nas engrenagens, mas também quando conversou comigo.
Trata-se de um homem afável, que sabe ouvir. Sente-se que conhece os seres humanos. Talvez tenha conseguido descobrir o segredo dos mecanismo psicológicos do homem. No espaço de algumas horas apenas, tornamo-nos muito cúmplices.
- Era capaz de escrever um livro sobre a tua historia. Neste momento já a conheço tão bem como a minha – diz ele.
- Escreva-o. Se um dia tiver filho, talvez eles possam ler.
Mas se quer saber o que se segue. Tem de vir comigo á Andaluzia!
- Com certeza não queres ter um prestidigitador deprimido por companheiro na tua peregrinação amorosa!
- Porque não? Gostava muito.
-Olha que eu ate sou capaz de fazer fracassar os milagres!
- Tenho a certeza de que não.
- Deixa-me pensar durante a noite, esta bem?
- Esta bem.
Quando os primeiros aios de sol entram pelas persianas do ateliê, ouço Georges Melies gritar:
- Andalucia! Anda! Andalucia! Anda! AndaaaAAAH!
Na minha frente, como que saído de uma oper, surge um louco em pijama.
- Está combinado, pequeno. Preciso de viajar no sentido real e figurado. Não me vou deixar esmagar eternamente pela melancolia. Precisamos os dois de uma enorme lufada de ar fresco. Isto se ainda me quiser como companheiro.
- Claro! Partimos quando?
- Imediatamente, a seguir ao pequeno-almoço! – Responde ele, mostrando-me a sua pequena trouxa.
Instalamo-nos a uma mesa cambada para beber um chocolate demasiado quente e devorar umas fatias de pão com compota demasiado moles. Não é um pequeno-almoço tão bom como em casa de medeleine, mas é divertido comer no meio de uma serie de extraterrestres de papel.
- Sabes, quando estava apaixonado, estava sempre a inventar coisas. Engenhocas, ilusões, efeitos especiais, tudo para divertir a minha noiva. Acho que ela se fartou - diz ele com bigode a meia haste. – Eu queria arranjar-lhe uma viagem á Lua, mas devia ter-lhe arranjado uma na Terra. Pedi-la em casamento, arranjar uma casa mais habitável do que o meu velho atelia, não sei… - acrescenta ele, suspirando. – um dia tirei duas pranchas a uma estante e fixei-lhes duas rodas tiradas de uma maca de hospital para podermos passear os dois ao luar. Ela nunca quis subir para cima desse carro improvisado. E eu tive de reparar a estante. O amor nem sempre é fácil, meu rapaz – repete ele, sonhador. – Mas tu e eu vamos montar nas nossas pranchas! Vamos percorrer metade da Europa nas nossas pranchas de rodas!
- E também apanhamos o comboio, não? Porque eu tenho alguma pressa.
- Pressionado pelo tempo?
- Também.
Dir-se-ia que o meu relógio é um amante de corações destroçados. Madeliene, Artur, Anna, Luna e ate Joe. E agora Mèliès.
Tenho a impressão de que os corações deles precisam mais dos cuidados de um bom relojoeiro do que o meu.